08/07/2016

Sobre bulimia e solidão

      Será que tudo aquilo valeu a pena?


      Eu acho que começa na infância, na pré-adolescência ou quando o ser humano começa a desenvolver o corpo adulto. Seios, bunda e muitos hormônios. Enquanto estamos passando por isso não sabemos o que fazer, apesar de muitas meninas já terem uma noção do que ser feito por terem conselhos maternos. Mas eu? Eu só queria esconder aquilo tudo. Meu corpo estava descontrolado, eu queria brincar com os meninos mas meus peitos doíam, queria assistir desenho mas já tinha curiosidade sexual... Estava tudo muito confuso na minha cabeça - sem falar da primeira menstruação.
      Ao mesmo tempo, as pessoas à sua volta também têm opiniões e - é claro - querem muito compartilhar. Coleguinhas apontando as coisas mais estranhas acontecendo com o seu corpo (espinhas) - como se você já não soubesse -, e as pessoas mais importantes da sua vida te criticando o tempo todo. Festas de família eram horríveis pra mim, eu via minhas primas que eram muito mais femininas que eu, minha vó e minhas tias adoravam falar que eu tava gorda - um dia minha vó até se recusou a dar a sobremesa pra mim. Mas o pior são as dicas que todos eles dão... 

"Tem que fazer exercício físico!"
"Come um pouquinho de 3 em 3 horas!"
"Para de comer tanto açúcar!"
"O segredo é fechar a boca!"

      Eles me diziam isso como se eu tivesse escolhendo estar naquela situação.
      Quando eu tinha uns 15 anos andava com um pessoal mais alternativo e comecei a querer ser que nem aquelas meninas nas fotos do Tumblr - aquelas magras com aquele espacinho entre as pernas e cabelo grande e liso. Aí já sabe né? Contar calorias, só comer sopa, pular o café da manhã, só comer doce, ficar com fome, me medir e me pesar todo dia, fazer chapinha, progressiva e etc. Meu cabelo apesar de muito ruim ainda, estava começando a ser domado com o tempo, mas meu peso só continuava crescendo.
      E aos 17, após ler incontáveis posts sobre o assunto, resolvi tentar enfiar o dedo na minha garganta. Percebendo que tudo que eu comia podia ser descartado logo depois, juntei o prazer de comer com um objetivo que já estava me deixando paranóica, insegura e depressiva. Foi um mês inteiro de comer um pratão de comida, muito sorvete e depois indo para o banheiro com a desculpa de "fazer minhas necessidades". Era rotina, comer com a família, subir pra vomitar e ficar sentada jogando Assassins Creed o resto do dia - até a próxima refeição. Fiz uma tabela com o peso que eu tinha que perder e em um mês perdi 10 kg.
      Confesso que eu tava muito feliz até sair com minha melhor amiga e comer um pouco, fui pra casa dela depois e meu corpo não estava mais acostumado a segurar comida. Minha pressão baixou, passei mal e contei tudo pra ela. As minhas palavras saíram com uma mistura de vergonha e incredulidade. Não conseguia acreditar na situação que me coloquei - e ninguém tinha percebido.
      Depois de contar pra minha mãe e começar a parar com esse vício - com a ajuda de remédios - tive a oportunidade de viajar para Austrália e foi lá que eu percebi o quanto meu novo corpo fazia a diferença. As pessoas me achavam bonita, eu recebia elogios de gente que eu acabava de conhecer, nunca tinha vivido isso antes e era bom.
      Finalmente consegui ser aquelas garotas que as outras garotas se inspiravam, comecei a ser mais feminina, usar maquiagem e ter um estilo próprio.
obs: Hoje em dia faço exercícios físicos regularmente, mantenho uma alimentação saudável e emagreci mais 8 kg.
      Voltei para o Brasil no terceiro ano do ensino médio e terceiro ano sabe como é né, putaria, bebedeira, cigarro e drogas. E nessas sociais de fim de semana reparei em homens se interessando por mim com mais frequência. No começo, com a minha ingenuidade, eu realmente achava que eles só queriam trocar beijinhos mas depois vi o real interesse deles.
      Meus assuntos com meus amigos mudaram, o papo era só sexualidade em geral.
obs: Eu tinha algumas amigas que falavam de séries, filmes, livros e música comigo também, beijinho pra elas.
      Depois desse ano eu me mudei pra outra cidade pra começar a faculdade e, é claro, tinha que fazer amigos e meus papos continuaram os mesmos - só que eu não reparava que uma mulher conversando com pessoas que não a conhecem muito bem sobre esses assuntos passava a impressão errada da personalidade e de quem ela realmente era.
      Então uma garota bonitinha falando abertamente sobre sexo não é nada mais além disso. E eu era muito mais do que aquilo, eu sou muito mais do que aquilo.
      Me chamavam pra sair o tempo todo e eu tinha a vida social bem agitada até eu realmente precisar de alguém.
      Comecei a mudar meus papos e minhas atitudes após perceber que eu não estava fazendo amizades, eu estava fazendo contatos: homens interessados e mulheres baladeiras. Não tinha mudado completamente porque odiava ficar sozinha e eram os papos que atraíam as pessoas. 
      Devido a alguns acontecimentos eu vi que estava na hora de mudar de verdade, os papos e as atitudes. Continuo com alguns contatos e saio de vez em quando mas hoje eu precisei de alguém.
      Pedi ajuda pra uma pessoa que conversa comigo o tempo todo e nós sempre saímos juntos, mas dessa vez eu que fui atrás dele e a falta de interesse na resposta foi monumental. Meus pais estão dormindo em outra cidade, pensei em outras pessoas para conversar e pedir ajuda mas a única coisa que eu consegui pensar foi: "e o que eles vão ganhar com isso?".
      Estou sempre rodeada de pessoas e se eu quiser posso sair todo fim de semana mas quando eu começo a ter sintomas de ansiedade de madrugada eu sei que essas pessoas não vão me ajudar.
      Ninguém quer se dar o trabalho de lidar com doenças psicológicas de outra pessoa e eu acabo ficando sozinha nos momentos que eu mais preciso de companhia.
      E a falta de energia para fazer novas amizades e mantêm-las também atrapalha.
obs: Eu consigo lidar com isso, mas uma ajuda de vez em quando é sempre bem-vinda.
      Mas será que valeu a pena sofrer tanto pra chegar no padrão imposto pela sociedade?
      Antes eu tinha amigos de verdade,
      Agora eu tenho coisas.

      Se pelo menos alguém tivesse me avisado...

2 comentários:

  1. amei seu texto Carol, édifícil não se identificar com essa história ou algo parecido ,tentar se encaixar num padrão, onde todos os valores estão deturpados e influenciados pela mídia de forma geral. Me falavam que se eu emagrecesse iria melhorar minha auto estima e consequentemente meu padrão de vida.

    mudei... mas ainda me vejo tão inseguro e ansioso como antes, rodeado de pessoas vazias e prazeres instantâneos (antes comida, hoje sexo e drogas).

    o vazio ainda continua lá, só tô vendo por outro ângulo


    ResponderExcluir
    Respostas
    1. tomara que um dia essa vazio desapareça, não tendo que ser preenchido por vícios destrutivos ou pessoas que não se importam com a gente... mas agora que a gente tem o corpinho, falta só amor próprio né *risada triste*

      Excluir